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Engenheiro de Estruturas: Uma profissão em vias de Extinção no Brasil
Dr. Eng. Carlos Augusto Vasconcelos
Eng. A.C.Vasconcelos

A profissão do projetista de estruturas tem sido quase a única atividade do engenheiro civil onde o profissional aplica todo o conhecimento teórico ensinado nas escolas de engenharia. Isto tem sido alterado desde que o computador tomou conta do mercado.

Ao invés de aplicar esta extraordinária criação do gênio humano como uma ferramenta de potencial inigualável, o engenheiro tem procurado usar a máquina com seus "softwares" para substituir a própria criatividade. Isto é decorrente da perniciosa "concorrência" de projetos, em que todos os engenheiros são nivelados. Os proprietários e os construtores têm a impressão errada de que o computador faz tudo, trabalhando "de graça" e dispensando a participação do engenheiro..

Dessa forma, o engenheiro recém formado que possui algumas posses, adquire um computador de última geração, com programas maravilhosos que fazem tudo, desde os cálculos até os desenhos. Não tendo escritório, nem familia constituida, trabalha em casa dos pais, sem despesas. Não paga alugel, alimenta-se gratuitamente como no tempo de aluno, não tem conta de luz e telefone para pagar. Qualquer importância que receba pela realização do projeto, é lucro. Nem impostos paga. Não possui secretária nem mensageiros. Os recados telefônicos são transmitidos pelos próprios familiares, que se sentem orgulhosos da nova atividade do "nosso menino".

Esse profissional tem todos os direitos de qualquer outro colega diplomado há mais de 20 anos, com larga experiência e com escritório próprio bem sucedido. Acontece entretanto que ele tem encargos: seus funcionários são registrados e seus salários ficam agravados com pelo menos 50% de encargos sociais. Paga aluguel e divide seus lucros com o governo. Seu preço de custo é superior ao total cobrado pelo engenheiro recém formado trabalhando sozinho em sua própria casa. Ele não chegou a se exercitar de maneira suficiente para entender o que faz. Julga-se capaz para fazer tudo sozinho e seu cliente o considera com a mesma competência que os mais velhos. Sabe que está pagando menos, porque ele está começando a vida e tenta conseguir uma boa clientela à custa de preços baixos.

O cliente compreende perfeitamente bem o motivo de pagar menos. Percebe que os mais velhos não têm a menor condição de acompanhar os mesmos preços e sempre força-os a isso, mostrando propostas muito mais baratas. O que o cliente não percebe é a diferença de qualidade do projeto. Alguns até mesmo, tentam se resguardar pedindo a alguém mais experimentado ou aposentado, uma opinião sobre o projeto recebido, porque ele não tem tempo para isso, nem está atualizado em face da mudança de normas, de materiais e de processos.

Ao que parece, a primeira concorrência feita para realização de um serviço, deu-se na construção do Palácio de Versailles. O ministro das finanças do Rei Sol, assustado com as despesas imensas, chegou a recomendar que as obras da construção do palácio, fossem aprovadas por concorrência. Foi um verdadeiro desastre. Os profissionais mais competentes, fugiam ao verificar os preços baixos oferecidos pelos incompetentes. O resultado foi a execução de serviços mal-feitos, de pouca durabilidade e de funcionamento precário: madeira de péssima qualidade, janelas que não fechavam adequadamente e que emperravam. O mesmo está acontecendo hoje, diante de nossos olhos, no campo estrutural. A experiência de Paris já foi esquecida e agora se repete, de maneira idêntica em outra área.

A análise dos desastres que têm ocorrido em construção de edifícios no Brasil, não tem sido divulgada adequadamente. A mídia fornece justificativas erradas ou incompletas e não corrige suas falhas depois de passadas as emoções da população.

Percebe-se exclusivamente a intenção de punir culpados. Os verdadeiros motivos não são divulgados. A grande experiência que se poderia extrair desses infortúnios fica totalmente perdida. Nem mesmo os engenheiros experientes chegam a tomar conhecimento das verdadeiras causas e ficam permanentemente com aquelas imagens erradas fixas na mente, e que foram amplamente divulgadas pela imprensa e pela televisão. Os verdadeiros motivos ficam escondidos, até mesmo para os juizes, que não têm a qualificação necessária para compreender os verdadeiros motivos do desastre.

A ética profissional não nos permite alertar sobre os fatos ocorridos, pois envolvem pessoas indiciadas e laudos sigilosos. Pode-se entretanto alertar para fatos sem qualquer referência aos verdadeiros desastres.

Um projeto é contratado pelo proprietário, às vezes um leigo. Ele contrata um engenheiro que foi indicado por algum amigo ou parente. Ele não conhece o profissional, nem tem condições de avaliar. Imagina que todos os profissionais com diploma e registro no CREA têm as mesmas qualificações. É o mesmo que acontece com nós, quando necessitamos de um médico para resolver um problema de saúde, que nem sabemos se é sério ou não. Aceitamos indicações de outros médicos e, às vezes, de qualquer leigo. Não temos condições de julgar se a escolha foi acertada ou não. Tanto num caso como no outro, existe a probabilidade de termos a infelicidade de contratar um profissional negligente, irresponsável, desatento e até mesmo incapaz. Isto pode acontecer com qualquer um, em qualquer país, em qualquer época. É um risco que se corre.

Nenhum proprietário que construiu um prédio, poderia pensar que estava contratando a pessoa errada. Não tinha a menor condição de julgar. Poderia estar contratando o melhor profissional de sua cidade ou o pior de todos, independentemente do preço exigido. Acontece, entretanto, que um bom profissional, ainda que necessitado, nunca aceitaria fazer um serviço por uma remuneração tão baixa que mal daria para pagar as despesas. Ainda que estivesse com seu pessoal ocioso, qualquer que fosse o serviço, a responsabilidade seria exclusivamente sua. Se a remuneração apenas cobrisse as despesas, sua responsabilidade seria gratuita. Acontece que, por incrível que pareça, isso tem acontecido. Se o indivíduo não possui atributos morais bem desenvolvidos, ele aceita a incumbência mas não participa. O serviço é entregue sem sua revisão, pois não está sendo pago para isso. O cliente nunca ficará sabendo, a não ser quando sobrevem algum desastre...

Experiência não se transmite. Não adianta querer prevenir qualquer cliente, procurando mostrar-lhe tudo o que possa acontecer. O cliente parte sempre do pressuposto de que, se o profissional aceitou o serviço, é porquê teve alguma vantagem, seja qual tenha sido. Ele fará o serviço da mesma maneira, qualquer que seja a remuneração.

Acontece que o Homem não é perfeito. Alguns procedem bem, in dependentemente do resultado. A maioria, entretanto, perde o estímulo de fazer um serviço bem feito. Lança mal a estrutura e manda tudo para o computador. Os resultados mostram que a estrutura não foi bem lançada. Muita economia poderia ser feita com alguns ajustes. O preço cobrado não é compatível com uma repetição do processamento, após alguns melhoramentos. O serviço será entregue como foi originalmente concebido. O proprietário que pague mais na obra o que ele economizou comigo, é o pensamento escondido !

Em geral é isso o que acontece. Quando não surgem falhas, o proprietário nunca saberá o que aconteceu. O que gastou a mais não percebe. Quando percebe, contratará outro profissional na próxima vês. Pode acontecer que o proprietário, mais preocupado com os gastos do que com a segurança ou a perfeição do projeto, procure sistematicamente contratar aquele que oferecer uma estrutura com o menor consumo de concreto. Isto força o projetista a reduzir ao máximo as dimensões, mesmo com infrações às normas. Reduz o consumo de concreto, à custa de excesso de armadura. Reduz espessuras de lajes, à custa do aparecimento de grandes deformações. Começam a aparecer fissuras nas alvenarias porque a estrutura ficou muito flexível. O projetista será banido daquela construtora que procurará outro profissional. Este será igualmente forçado a fazer um máu projeto.

Com os preços em baixa, com os riscos de surgirem falhas quer em alvenarias, quer na própria estrutura, com os desabamentos freqüentes que têm ocorrido, sobrevem o desestímulo dos profissionais. As escolas de engenharia têm, em cada ano, menor número de interessados nos cursos de engenharia civil. Dentre estes, o número daqueles que seguirão a engenharia de estruturas, é cada vês menor. A realidade é que, mesmo com o aumento da população, as escolas de engenharia civil estão se esvaziando...

Aonde queremos chegar com tais comentários ?

Se não acontecer algo excepcional, teremos no futuro, que contratar projetos feitos no exterior, porque no Brasil não existirão mais profissionais competentes para tais tarefas. Só existirão profissionais para verificação dos projetos antes de sua execução. Tive atividade de projetos durante 30 anos. Desisti, por falta de estímulo. Desisti, triste pela dificuldade de bons serviços e pela competição desonesta. Desisti pelo não reconhecimento do trabalho feito e pelos erros cometidos nas obras como se fossem erros nossos... Hoje a situação é muito pior. Existe um desencanto total na profissão. As normas se tornam cada vês mais extensas, acompanhando o que se faz no mundo, para serem aplicadas num país que não pode aceitar tantas exigências. É dinheiro que sai do bolso do projetista para entrar no bolso do proprietário...

Hoje só faço verificação de projetos. Percebo que a qualidade tem sido cada vês pior. Os cálculos são corretos, pois são executados por computador, com programas confiáveis. A estrutura entretanto é geralmente mal concebida, e o computador não alerta para isso. Apenas executa o serviço, seja qual for. As dimensões previstas são geralmente insuficientes. As quantidades de armaduras são excessivas. As deformações ultrapassam os limites máximos estabelecidos por normas. O projetista exige então módulos de elasticidade tão altos que não podem ser conseguidos com a resistência especificada. Quando o verificador não é ético, o projetista acaba sendo desmoralizado. Quando é ético e comunica o fato ao projetista, antes do cliente tomar conhecimento do caso, algumas vezes não é levado a sério por "melindres profissionais". Se nada comunica ao cliente e acontece o desastre, será chamado para justificar porque não alertou para o erro antes que ocorresse o desastre. Nem sempre é fácil mostrar ao profissional que, com tal atitude ele está sendo protegido e que precisa corrigir o erro antes que outros venham a saber ou que seja tarde demais.

Tudo isto está levando a profissão a um desencanto.

Como podemos evitar uma debandada geral ?

Precisamos mostrar aos proprietários que, se eles resolverem fazer os cálculos no exterior, vão ter consumos muito mais altos do que no Brasil (em parte por causa das normas, em parte por causa dos materiais, em parte por causa de costumes arraigados).

Os nossos profissionais não deveriam receber uma remuneração extra por essas economias ?

Minha intenção ao escrever este alerta é abrir os olhos dos construtores e proprietários para que obtenham melhores projetos, contratando corretamente os serviços. Qualidade de projeto e preço mínimo são incompatíveis. Existe um meio de convencê-los de que estão errados ? Existe sim, mostrando a verdade dos desabamentos, o que a imprensa não faz. Para isso, porém, sou obrigado a citar casos reais mudando nomes, locais e datas, para não prejudicar pessoas envolvidas.

Um caso de desabamento ocorreu 20 anos atrás numa cidade do interior de Minas Gerais. O edifício ruiu parcialmente numa madrugada e muitos moradores morreram. Foi erro de construção ? Foi material deficiente ? Foi erro de cálculo ? Nesse caso não foi nada disso: foi economia de desenho feita pelo projetista. Ele foi "forçado" a executar o projeto por preço aviltante. Usou o computador, que fez os cálculos rapidamente, sem erros. A estrutura, com a pressa, não havia sido bem concebida, mas isso, no caso, era irrelevante. Os cálculos corretos conduziriam a uma estrutura estável. O projetista ao começar a desenhar as fôrmas, percebeu que o projeto completo exigiria quase 100 desenhos. O que ele receberia pelo projeto total não pagaria nem os desenhos. Num acesso de desespero ordenou ao seu auxiliar, operador do "plotter" - dispositivo que imprime os desenhos a partir dos resultados de cálculo armazenados no computador - que economizasse desdenhos. O preço do projeto não cobriria mais do que 20 desenhos. Vigas diferentes no carregamento, seriam desenhadas iguais do 1o andar até a cobertura, colocando a armadura da viga mais solicitada. Para os pilares, não obstante a simetria não ser perfeita, as armaduras seriam uniformizadas: -- Use a simetria e reduza os detalhes para a metade ! , foi a ordem dada. O operador do "plotter" cumpriu as ordens. Entretanto, ao executar o serviço, inadvertidamente, ao invés de desenhar os pilares pelo mais carregado, fez o contrário. A lei de Parkinson foi desastradamente aplicada: -- Quando V. chega a uma bifurcação e precisa escolher, a escolha será sempre a errada !... Foi isso o que aconteceu. As diferenças entre um lado e outro do prédio não eram grandes. Um único pilar, entretanto, possuia um carregamento quase o dobro do de seu "simétrico". Foi desenhado tudo pelo menos carregado e o edifício veio abaixo. O concreto estava bom demais. Se tivesse sido executado exatamente com a resistência especificada, teria havido o desmoronamento durante a construção, com menor número de vítimas e prejuízos. O coeficiente de segurança usual é 2,0. Se se aplica o dobro da carga, a ruptura pode ocorrer rapidamente. Se o concreto possuir um excesso de resistência de 25%, a ruína vai surgindo aos poucos, mesmo que a carga de projeto não tenha sido totalmente aplicada. Foi o que realmente aconteceu. Pergunta-se: -- a imprensa não teria obrigação de divulgar a verdade, ao invés de manter a populaçào com a crença errada ?

Outro desmoronamento surgiu numa cidade do litoral paulista, com perda total do prédio, 10 anos depois. O edifício ainda não estava totalmente ocupado, mas quase todos os que estavam instalado, morreram. Uns poucos puderam fugir antes do desabamento ao serem alertados pelo zelador, deixando todos os seus pertences para trás. A ruína foi instantânea. Qual o motivo do desastre nesse caso ? Não sabemos. Sabemos apenas que houve modificação de projeto em diversos pontos importantes, desde a fundação até o andar de transição.

Os materiais extraídos dos entulhos foram exaustivamente examinados. A resistência não estava com excesso, mas não era deficiente. Os acabamentos foram executados com grande excesso. A tentativa de consertar erros de prumo e de flechas nas lajes, acarretaram um acréscimo de peso de quase 25%. Isto não seria motivo suficiente para a ruína. Houve erros de locação nas fundações. Aparentemente o solo não era bom e as estacas não teriam alcançado a profundidade adequada. Além disso, algumas foram cravadas em posição errada, exigindo uma reformulação do projeto. Vários erros de locação e medidas das dimensões dos pilares, agravaram a situação. Toda modificação desasticula o projeto e isto parece ter sido a causa da ruína. Nunca se saberá.

Que lição se pode extrair desse acidente ?

Qualquer alteração de projeto deve ser comunicada ao projetista. Deve ser encomendado um estudo detalhado de qualquer alteração, com remuneração compatível com a gravidade da alteração, devendo ser exigido o acompanhamento pelo projetista em todas as etapas. Qualquer economia de materiais, de detalhamento, de pagamento do projeto, pode ser desastrosa. Há casos em que as implicações das alterações exigem mais cálculos do que no projeto original.

Existe remuneração que pague tais estudos ?

Um projetista famoso do interior de Mato Grosso costumava elaborar seus projetos estruturais concebendo vigas contínuas de apenas 2 ou 3 tramos. Qualquer viga da estrutura seria sempre sub-dividida dessa maneira. Por exemplo, uma viga de 7 tramos seria calculada como sendo constituida pela justaposição de 3 vigas, respectivamente com 3, 2 e 2 tramos. Nas junções não seria feita separação, sendo alí colocada uma armadura simbólica de 2 ( 10 mm. As cargas nos pilares, acumuladas em 14 pavimentos, poderiam apresentar, conforme o caso, diferenças superiores a 10%. Nunca era levada em conta a ação do vento, fosse qual fosse a estrutura. Os pilares, por sua vês, seriam dimensionados no andar térreo, com a menor dimensão possível e com a máxima armadura permitida: 6%. Na zona de traspasse de armaduras, de um pavimento para outro, a armadura seria o dobro: 12%. Isto dificultaria muito a concretagem, induzindo a falhas de execução. O pilar seria mantido com a mesma seção até o topo, variando apenas a armadura.

As normas não eram obedecidas. As dimensões mínimas dos pilares eram sistematicamente de 12 cm, contentando os arquitetos, que sempre preferiam a escolha daquele projetista. Posteriormente a um acidente grave, com destruição total do edifício na fase de pintura e a morte apenas do vigia, os cálculos daquele projetista foram examinados, ficando divulgada sua maneira de trabalhar. Porque ele trabalhava assim ? Para conseguir acompanhar os preços cada vês mais baixos dos concorrentes, a única forma que ele encontrou foi a de simplificar os cálculos e desenhos. Não usava computador. Não levava em conta o efeito do vento. Não aplicava excesso de armadura, vangloriando-se de consumos mínimos de concreto e aço. Um dia aconteceu o desastre. Todos os seus cálculos naquela cidade foiram examinados. Estavam todos com os mesmos vícios. Alguns edifícios foram reforçados e a fama do projetista foi tal que ele nunca mais conseguiu trabalhar naquela cidade...

De quem é a culpa ?

Simplificação excessiva de projeto para abaixar os custos e ganhar os contratos, desobediência às normas para ganhar a simpatia dos arquitetos, apresentação dos desenhos em tempo record sem desenvolver todos os cálculos necessários, comunicação falsa de consumos de materiais, são apenas algumas das constatações que tenho anotado em minha atividade de consultor.

CONCLUSÕES
( para serem lidas obrigatoriamente pelos proprietários e construtores):
- Nem sempre o preço mais baixo de projeto dá uma economia real.
- Pode acontecer da obra ser mais econômica com maior consumo.
- É mais importante um projeto bem detalhado do que um desenho bonito.
- Poucos desenhos podem indicar gasto excessivo de materiais.
- Nunca haverá um projeto bom feito num prazo inadequado.
- Não é somente a segurança que vale num projeto: o comportamento em
  serviço e a durabilidade são igualmente importantes.
- O que representa o preço de um projeto de qualidade em confronto com:
  custo dos acabamentos, facilidade de execução, bom detalhamento,
  tranqüilidade, acompanhamento da obra pelo projetista ?
- Quem escreve isto só é beneficiado com projetos ruins.

São Paulo, Abril de 2000

Augusto Carlos de Vasconcelos

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